sábado, 6 de junho de 2026

PORTÃO FECHADO

 
Rêgo d'Água, Leiria, Portugal, 2024

Foi quando passavam nas imediações do mercado municipal, ainda a noite ia a meio, que o Campos se baixou para apagar o cigarro, sem afrouxar o passo, momento em que o Correia, imediatamente atrás, observou: 
-Olha! Parece a cena dos Supertramp no 'Paris'. Lembram-se da foto?
-Yá! - disseram os outros três companheiros. -Vamos repetir.
Reposicionaram-se no largo passeio e, como que representando para uma cena de filme, voltaram a ensaiar a caminhada de poucos minutos atrás, imaginando-se agora a subir para o palco de um concerto em Paris, em que o Campos representava o papel de Roger Hodgson - na capa interior do dito álbum, que os britânicos Supertramp gravaram ao vivo na cidade das luzes em 1980, há uma sobreposição de imagens em que se percebe o movimento de Roger Hodgson a baixar-se para apagar o cigarro. 
-Olha! Também podíamos formar uma banda!
-Ah, mas que ideia tão fixe! Como é que nunca pensámos nisso antes?

A formação da banda tornou-se instantaneamente no tema para o resto da noite. O Campos disse que queria ser o baterista. O Filipe disse que ia comprar uma guitarra. O Correia e o Alexandre ficaram também entusiasmados com a ideia mas ainda não sabiam muito bem que funções gostariam de ter numa banda. Ensaiaram-se logo ali as poses, pensou-se no estilo, e sonhou-se com a fama, o sucesso e muita riqueza. 
-Vamos arranjar um nome muito fixe. Vamos viajar e dar concertos por todo o mundo e vamos ter gajas a rodos, disse o Alexandre -Incrível! Podemos ter o mundo aos nossos pés!

Nos dias seguintes, o Alexandre assumia-se como o agente da banda. Tinha jeito para organizar as coisas e tinha ideias brutais. Seria ele quem se encarregaria de fazer os posters e os bilhetes para os concertos, através de engenhosos trabalhos de colagem que ele fazia, entusiasticamente, em casa. Foi também dele a ideia de juntar o Pires à banda, como guitarrista: "Vamos convidar o Pires para a banda porque o Pires é um gajo bonito e atrai as gajas". O problema é que o Pires não sabia (ainda) tocar guitarra. Entretanto, o Correia acabou por decidir ser o vocalista, já que não havia mais ninguém disposto a isso. 

Havia ainda o Armando, que bem tentou fazer parte da banda como guitarrista, mas só sabia tocar "A Samaritana" e o fado não era bem o que se pretendia. Lá se resignou que não havia ali lugar para ele e decidiu ser o cameraman da banda, por uns tempos, mas depois acabou por se oficializar como o motorista ... era o único que tinha a carta de condução, naquela altura. Numa visita à loja de instrumentos local, o Samuel, filho do dono, entusiasmou-se com esta malta e prontificou-se, de imediato, a ser o baixista da banda. Foi uma grande aquisição porque, até ao momento, era o único que sabia mesmo tocar alguma coisa e facilitou o acesso a uma sala de ensaios, que ele disponibilizou no salão situado nas traseiras da loja. A coisa encaminhava-se.

O Filipe acabou por desistir da ideia de ser guitarrista e passou a ser o técnico de luzes, sujeitando-se, corajosamente, à violência das descargas elétricas proporcionadas pela plataforma de luzes caseira que alguém elaborou para uso da banda. O Samuel e o Campos sugeriram mais um guitarrista para a banda, que era o José, um amigo que tinha uma guitarra elétrica Les Paul "traficada" e até sabia tocar umas coisas. A coisa ficou assim mais ou menos alinhavada para arrancar quando, um dia, se cruzaram casualmente com o Rodrigo, que ficou bastante intrigado ao ver esta malta a carregar instrumentos musicais pela rua fora. Quando percebeu que ali se estava a preparar uma banda, também se quis juntar e até foi comprar uma guitarra. Mas ninguém queria mais um guitarrista e nem havia muita confiança no Rodrigo, que era um pouco mais velho e dava-se com pessoal "duvidoso". Mudaram de local de ensaio por várias vezes para despistar o Rodrigo, mas ele encontrava-os sempre e lá acabou por ficar.

A banda ficou assim com três guitarristas, o Pires, o José e o Rodrigo. O Campos manteve-se na bateria e o Samuel no baixo, enquanto que o Correia tentava cantar alguma coisa. Depois de muitas tentativas frustadas, o nome da banda acabou por surgir, uma noite, por entre uma mesa cheia de hambúrgueres com molho de salada, e muitos copos de imperial, em que o Correia se virou repentinamente para o Furtado e disse:
-O nome da banda vai ser o que o Furtado disser agora. 
Perante a expetativa geral, em que todos se fixaram no surpreso Furtado que, apanhado no preciso momento de uma cobiçosa dentada no hambúrguer, ficou muito sério e apenas disse: - É pá, não sei ... 

A primeira música tinha dois acordes, Mi menor e Ré menor, e chamava-se "Portão Fechado".


                           "So You Want To Be A Rock'N' Roll Star" - The Byrds (1967)


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