Criado inicialmente para divulgação das minhas fotografias, o blogue passou a funcionar, em Maio de 2020, como um exercício pessoal com o intuito de fundir três gostos pessoais: Música, Literatura e Fotografia. Em Setembro de 2023, o blogue deixou de ter um critério estritamente definido passando a funcionar de forma mais liberal, mantendo a abrangência dos mesmos gostos pessoais, a que iriei juntar ainda o Cinema e outras curiosidades.
"Nem mesmo deitado tirara a boina. Estava ao comprido, de samarra e botins. Daí a pouco dormia.
"É isto", lamentou-se o rapaz, passeando sempre; veio junto do preso, bateu-lhe no ombro, num gesto amigo: "Estamos destinados um ao outro. Viajas comigo, mijas comigo, fumas os meus cigarros... Queres melhor, pá?"
Foi então que apareceu a Floripes, vinda do gabinete do Leandro. Ao deparar com aquele camponês de pé, a balouçar numa grande névoa, a barba crescida, os olhos como duas frestas de sono, ficou abismada. Era o mesmo homem que, pouco antes, lhe tinham mostrado numa das fotografias."
in "O Hóspede de Job" de José Cardoso Pires (1963)
"O relatório afirmava que o objecto pairou sobre um campo usado para pastagem. Toda aquela zona era arborizada, e na zona sobre a qual o objecto pairou, a erva ficou acamada, formando um círculo de 18 m. de diâmetro; por cima do círculo, a erva ficou solta, como se tivesse sido sugada pelo objecto quando ele se ergueu a alta velocidade. A erva pisada foi vista por várias testemunhas, e amostras do solo e da erva foram recolhidas e enviadas a Dayton para serem analisadas pela Divisão de Análise Técnica, tendo sido concluído que não havia quaisquer indícios de radioactividade, queimaduras ou pressão.
O relatório do Livro Azul acrescenta ainda:
Depois de parar o carro, o Sr. ----- desligou o motor e ao sair do carro ouviu um ruído palpitante que vinha do objecto. Quando o objecto começou a subir, fez um barulho semelhante ao que faz um bando de aves quando levanta voo. Não foi observado fumo, nem vapor. O tempo estava quente, com algumas nuvens e sem vento. O Sr. ----- disse que o sol nasceu aquela hora, pelo que já havia luz suficiente para se ver todos os objectos naquela zona. A testemunha não se lembra de ter visto quaisquer aviões, comboios ou outros veículos aquela hora."
in "OVNI - Relatório Hynek" de Dr. J. Allen Hynek (1977)
Pormenor da Fonte das 3 Bicas, Leiria, Portugal (2019)
"Nas vésperas da revolução de Abril de 1974, o mercado do rock em Portugal assistiu ao lançamento de um LP único: "Mestre", dos Petrus Castrus, em 1973. Com efeito, aliando à escassez de LP's até então publicados o facto de ter sido gravado nos estúdios do Castelo de Hérouville (em França, onde gravaram Elton John, Cat Stevens e os Pink Floyd, entre outros), de a grande maioria dos textos do álbum serem da autoria de consagrados escritores de língua portuguesa - e muitos deles anti-regime - e tendo ainda em conta a musicalidade hard rock progressivo patente em todo o trabalho, este era sem dúvida um álbum destinado a ficar na história. Logo depois do 25 de Abril, os Petrus Castrus, num ano desafortunado para o rock, lançariam ainda o single "A Bananeira", com um brilhante "Seis e Meia da Tarde", próximo de alguns Soft Machine ou King Crimson."
in "Portugal Eléctrico! - Contracultura Rock 1955 . 1982" de Edgar Raposo e Luís Futre (2013)
"Tenho repetido muito «lembro-me», «vem-me à cabeça» ... Eh, a memória é importante - para todos, a qualquer idade. A memória de qualquer coisa: de uma canção, de um acontecimento; de uma comida, porque se calhar esta comida está a ligar-nos a um momento especial, a um encontro, a uma festa. E o mesmo com os cheiros, ou uma paisagem.
Adoro ficção científica. Mesmo num filme de ficção científica, no Blade Runner, o que representa sofre, sofre de uma maneira impressionante porque não tem passado, não tem memória. Até isto dá a medida de como é importante.
Lembro-me - não sei se o li ou ouvi num filme, não me recordo onde foi - de um canto navajo, índio, que diz:
Tudo o que viste, recorda-o
Porque tudo o que esqueces
Torna a voar no vento."
in "Eu lembro-me, sim, bem me lembro" de Marcello Mastroiani (1997)
Ao largo da Polvoeira, Pataias, Alcobaça, Portugal (2016)
"No passado, os mares pareciam inexauríveis. No entanto, os efectivos de muitas espécies de peixes caíram para 10% ou menos dos seus níveis históricos. Dois terços das unidades populacionais de alto mar, incluindo as de tubarão, atum e espadarte, desceram já abaixo dos mínimos sustentáveis.
A aquicultura cresceu de forma explosiva para satisfazer uma procura em expansão a que a pesca já não consegue dar resposta. Em 1980, apenas 9% do pescado que consumíamos provinha de viveiros, contra 43% actualmente. Mas a aquicultura também tem custos ambientais, incluindo a poluição costeira e a contaminação das espécies selvagens."
in National Geographic - O Estado Do Planeta (Edição Especial - 2008)
"Endangered Species" - PAT METHENY / ORNETTE COLEMAN (1986)
Salto fantasma, Casa da Guarda do Gaio, Gaio, Alcobaça (2018)
"Em 1974-1975 estávamos na Universidade Nova, ainda unida e instalada na Av. da República, a frequentar um curso sobre o Modernismo dado por um conjunto de grandes eruditos, entre eles, para o caso de Fernando Pessoa, Luciana Stegagno Picchio e Eduardo Lourenço.
Num dos seminários de Eduardo Lourenço, refletindo sobre a poesia de Álvaro de Campos, exclama o insigne Mestre: "gostava de saber se Pessoa teria mesmo a obra de Walt Whitman".
Ora eu sabia que a meia irmã, Dona Henriqueta, vivia perto da UNL, do outro lado da Av. da República. Disse a Eduardo Lourenço: é simples, amanhã vou a casa da Dona Henriqueta e pergunto, e procuro na biblioteca dele. Foi o que fiz, e encontrei o volume das Leaves Of Grass profusamente anotado. Encontrei também no pequeno armário de vidros obras que eu conhecia bem, de filosofia hermética.
Dei a Eduardo Lourenço a informação que o esclareceu e passei a visitar regularmente aquela casa onde uma senhora amável e paciente connosco, "os pessoanos", me deixou microfilmar tudo o que me interessou da arca carregada de papéis ainda desarrumados. Parte da minha investigação desses tempos está publicada em obras dos anos 80. Quanto aos livros, alguns já eu tinha e outros, dos que ele leu, fui comprando ao longo dos anos. Hoje tenho em casa os autores herméticos que foram companheiros da vida do poeta e em grande parte da minha.
Yvette Celeno
Escritora e investigadora"
in "Fernando Pessoa - o editor, o escritor e os seus leitores", edição Fundação Calouste Gulbenkian, coordenação editorial de Richard Zenith, com a colaboração de Carlos Filipe Moisés e Maria Helena Melim Borges.
"Na Véspera De Não Partir Nunca" - MARGARIDA PINTO, poema original de Álvaro de Campos (2005)
Detalhe captado na capa de um disco em vinil, (2017)
"Demon Fuzz ajudou a criar a cena afro-rock londrina do final dos anos 60, dando energia ao movimento imortalizado pelos Equals, Cymande e Osibisa. Embora o fundador dos Demon Fuzz, Paddy Corea, não se recordasse do nome do cavalheiro, o modelo na capa era um lutador real, de ascendência guianesa, que residia em Manchester na altura da concepção do álbum.
title Afreaka!
year 1970
label Janus "
in "Funk & Soul Covers", Joaquim Paulo - Ed. Julius Wiedemann / Taschen (2010)
Azulejo decorativo em Reguengo do Fétal, Batalha, Portugal (2018)
"-Capitão, o amigo é um atrasadão, mas quero lhe ver nas mãos de Rosália fazendo tudo o que ela quiser; lhe digo mais: de joelhos, pedindo para fazer.
-Quem? Eu, Justiniano Duarte da Rosa, o capitão Justo? Nunca.
-Quando vai à Bahia, capitão? Marque a data e eu aposto em Rosália a dez por um. Se ela falhar, a festa nada lhe custa, é de graça.
-Só que vou à Bahia por esses dias, logo depois das festas. Recebi um convite do governador para a Festa do Dois de Julho, a recepção no palácio. Foi um amigo meu que é da polícia quem arranjou.
-Demora por lá? Quem sabe, ainda lhe alcanço?
-Nem eu sei, depende tudo do juiz, tenho uma pendência no fórum. Aproveito para ver os amigos, nas secretarias, gente do governo, conheço muita gente na Bahia e os assuntos daqui, abaixo do Guedes, quem resolve sou eu. Vou demorar bem uns quinze dias.
-Ainda assim, não lhe alcanço, prometi ao velho passar o mês com ele. Sem falar na vizinha, tenho de tirar a limpo esse assunto, descobrir a verdade, se é virgem ou não. Para mim é ponto de honra. Mas façamos o seguinte: eu lhe dou uma carta para Rosália, o amigo a procura em meu nome no Tabaris.
-No cabaré Tabaris? Conheço, já estive.
-Pois ela canta lá todas as noites.
-Então está certo, me dê a apresentação e vou conhecer esse tal de buchê árabe. Mas avise a ela para me respeitar, é ela em mim, e acabou-se, se não quiser apanhar.
-Eu mantenho a aposta, capitão, Rosália vai lhe virar pelo avesso.
-Ainda não nasceu a mulher que mande no capitão Justo, muito menos que faça dele cachorro de francesa. Homem macho não se rebaixa a isso.
-Um conto de réis meu contra cem mil-réis seus como o capitão lambe Rosália e pede bis.
-Nem por brincadeira repita isso e sua aposta não aceito. Escreva para essa dona, diga que pago a ela direito, mas que me respeite. Quando me zango, não queira saber."
in "Tereza Batista Cansada De Guerra" de Jorge Amado (1972)
"Um Nome de Mulher" - ANTÓNIO CARLOS JOBIM - VINICIUS DE MORAES (1956)
"Desejado por quase toda a gente e ainda por cima com a pressão da Inglaterra (para quem a independência do Brasil trazia imensas possibilidades de expansão económica e política, ao mesmo tempo que enfraquecia Portugal, colocando-o ainda mais, se possível, na dependência inglesa), alcançou-se bem depressa um acordo entre as duas partes. Em finais de 1823, as derradeiras tropas portuguesas deixavam o Brasil, poucos obstáculos ficando agora no caminho do apaziguamento. Em 29 de Agosto de 1825, o tratado do Rio de Janeiro reconhecia a separação do Brasil e a sua conversão em império. Nos termos das suas cláusulas, D. João VI era proclamado co-imperador (teórico) do novo Estado em sua vida. Com muito pouco derramamento de sangue e tão pacificamente quanto possível (houvera, é certo, alguns combates na Baía e no Rio) a maior nação da América Latina alcançara a soberania plena no seu território. Para Portugal, também, uma nova época ia começar."
in "História de Portugal", Volume II, Do Renascimento às Revoluções Liberais, de A.H. de Oliveira Marques (1997)