segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A VINHA. OS VINHOS.

Carrascal, Alcobaça, Portugal (2020)
 
"A cultura da vinha tem hoje na Região de Alcobaça excepcional importância e a sua área de cultura tem aumentado muito, sobretudo nos últimos anos. Invadiu todos os campos, apossou-se dos melhores terrenos, das melhores várzeas, das mais produtivas encostas, e o cultivador seduzido pelos lucros, muitas vezes aparentes, que esta cultura deu, entregou-se com todo o entusiasmo à plantação da vinha e nela depositou as melhores esperanças, na fé de que seria uma fonte de inesgotáveis lucros.
Durante o período da Guerra, em que a exportação de vinhos atingiu extraordinária importância, vendeu-se tudo, bons e maus vinhos, e a falta de honestidade de alguns vendedores foi largamente remunerada.
E foi essa venda fácil e lucrativa, foi a falta de previsão do futuro e o desejo de aproveitar ainda esse período de enriquecimento que fez que os melhores campos da região fossem invadidos por esta cultura. Das terras de sequeiro passou às de regadio, dos terrenos de encosta que produziam os melhores vinhos, passou às terras de aluvião férteis e fecundas, da zona montanhosa desceu às planícies, e as terras de campo que não são alagadas durante o inverno já estão, nalguns pontos, plantadas de vinha!
Foi ainda esse bem-estar transitório a origem, em parte, do aumento desta cultura, porque foi com os lucros obtidos durante os primeiros anos da Grande Guerra que muitos cultivadores puderam fazer face às despesas sempre elevadas da plantação. E por esta forma se plantaram por todo o concelho, e muito especialmente na zona serrana, muitos milheiros de cepas.
A cultura da vinha é, pelo menos por enquanto, uma riqueza enorme para a Região de Alcobaça pois o valor da produção atinge anualmente muitas centenas de contos."

in "J. Vieira Natividade - Obras Várias I", Edição da Comissão Promotora das Cerimónias Comemorativas do I Aniversário da Morte do Prof. J. Vieira Natividade - Alcobaça (1969)


                            "Valsa De Um Bêbedo" - ISRAEL COSTA PEREIRA (2018)


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

PYOTR ILYCH TCHAIKOWSKI (1840-1893)

Perspetiva de um piano de cauda, Leiria, Portugal (2017)

"O alcance musical de Tchaikowski ultrapassa a canção popular russa e o amadorismo corajoso, daí a sua rejeição pela Kuchka, e em particular pelo seu severo porta-voz, Cui. Um exemplo é o Capricho Italiano, uma fantasia para orquestra sobre as impressões de um feriado, à maneira da música popular italiana; outro é a sinfonia Manfred, sem número, datando de entre as sinfonias quatro e cinco, baseada no drama poético de Lord Byron. Foi escrita logo após o seu casamento desastroso com uma rapariga fanática, talvez ninfomaníaca, cujos galanteios lhe faziam lembrar Tatyana na ópera Onegin. Tchaikowski decidiu não cometer o erro de Onegin e casou com ela, mas descobriu de imediato que o seu temperamento homossexual era repelido pelo contacto com uma mulher, e foi obrigado a divorciar-se dela. No entanto, necessitava de uma confidente do sexo feminino e felizmente encontrou-a numa viúva rica, sexualmente frustrada, Nadezhda von Meck, que lhe deu uma subvenção anual e com ele trocava cartas intelectuais e íntimas, embora tivessem o cuidado de nunca se encontrar. Nenhum deles desejava o contacto físico com o sexo oposto, mas ambos precisavam do contacto espiritual. Mme. Meck ajudou mesmo Tchaikowski, dando-lhe a confiança criativa de que ele carecia."

in "James Galway, A Música no Tempo", escrito por William Man (1982)


                          "Capricho Italiano, Op.45" - PYOTR ILYCH TCHAIKOVSKI (1880)
                      Condutor: Herbert von Karajan - Orquestra: Berliner Philarmoniker (1963)

domingo, 6 de dezembro de 2020

«PREPARA-TE»

Grade, Gândara, Leiria, Portugal (2020)

   "Nem mesmo deitado tirara a boina. Estava ao comprido, de samarra e botins. Daí a pouco dormia.
   "É isto", lamentou-se o rapaz, passeando sempre; veio junto do preso, bateu-lhe no ombro, num gesto amigo: "Estamos destinados um ao outro. Viajas comigo, mijas comigo, fumas os meus cigarros... Queres melhor, pá?"
   Foi então que apareceu a Floripes, vinda do gabinete do Leandro. Ao deparar com aquele camponês de pé, a balouçar numa grande névoa, a barba crescida, os olhos como duas frestas de sono, ficou abismada. Era o mesmo homem que, pouco antes, lhe tinham mostrado numa das fotografias."

 in "O Hóspede de Job" de José Cardoso Pires (1963)


                            "Jeremias o Fora-da-Lei" - JORGE PALMA (1985)


domingo, 29 de novembro de 2020

O HOMEM DA RÁDIO, NA AUTOESTRADA

Almoinhas, Leiria, Portugal (2020)

 "O relatório afirmava que o objecto pairou sobre um campo usado para pastagem. Toda aquela zona era arborizada, e na zona sobre a qual o objecto pairou, a erva ficou acamada, formando um círculo de 18 m. de diâmetro; por cima do círculo, a erva ficou solta, como se tivesse sido sugada pelo objecto quando ele se ergueu a alta velocidade. A erva pisada foi vista por várias testemunhas, e amostras do solo e da erva foram recolhidas e enviadas a Dayton para serem analisadas pela Divisão de Análise Técnica, tendo sido concluído que não havia quaisquer indícios de radioactividade, queimaduras ou pressão.

O relatório do Livro Azul acrescenta ainda:

Depois de parar o carro, o Sr. ----- desligou o motor e ao sair do carro ouviu um ruído palpitante que vinha do objecto. Quando o objecto começou a subir, fez um barulho semelhante ao que faz um bando de aves quando levanta voo. Não foi observado fumo, nem vapor. O tempo estava quente, com algumas nuvens e sem vento. O Sr. ----- disse que o sol nasceu aquela hora, pelo que já havia luz suficiente para se ver todos os objectos naquela zona. A testemunha não se lembra de ter visto quaisquer aviões, comboios ou outros veículos aquela hora."

in "OVNI - Relatório Hynek" de Dr. J. Allen Hynek (1977)


                            "The Happening" - PIXIES (1990)


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

1970 . 1974 FOLK&PROG

 
Pormenor da Fonte das 3 Bicas, Leiria, Portugal (2019)

"Nas vésperas da revolução de Abril de 1974, o mercado do rock em Portugal assistiu ao lançamento de um LP único: "Mestre", dos Petrus Castrus, em 1973. Com efeito, aliando à escassez de LP's até então publicados o facto de ter sido gravado nos estúdios do Castelo de Hérouville (em França, onde gravaram Elton John, Cat Stevens e os Pink Floyd, entre outros), de a grande maioria dos textos do álbum serem da autoria de consagrados escritores de língua portuguesa - e muitos deles anti-regime - e tendo ainda em conta a musicalidade hard rock progressivo patente em todo o trabalho, este era sem dúvida um álbum destinado a ficar na história. Logo depois do 25 de Abril, os Petrus Castrus, num ano desafortunado para o rock, lançariam ainda o single "A Bananeira", com um brilhante "Seis e Meia da Tarde", próximo de alguns Soft Machine ou King Crimson."

in "Portugal Eléctrico! - Contracultura Rock 1955 . 1982" de Edgar Raposo e Luís Futre (2013)


                            "Mestre" - PETRUS CASTRUS (1973)


terça-feira, 10 de novembro de 2020

VOAR NO VENTO

Campos do Lis, Leiria, Portugal (2020)
   
"Tenho repetido muito «lembro-me», «vem-me à cabeça» ... Eh, a memória é importante - para todos, a qualquer idade. A memória de qualquer coisa: de uma canção, de um acontecimento; de uma comida, porque se calhar esta comida está a ligar-nos a um momento especial, a um encontro, a uma festa. E o mesmo com os cheiros, ou uma paisagem.
   Adoro ficção científica. Mesmo num filme de ficção científica, no Blade Runner, o que representa sofre, sofre de uma maneira impressionante porque não tem passado, não tem memória. Até isto dá a medida de como é importante.
   Lembro-me - não sei se o li ou ouvi num filme, não me recordo onde foi - de um canto navajo, índio, que diz:
Tudo o que viste, recorda-o
                                                Porque tudo o que esqueces
                                                Torna a voar no vento."  

in "Eu lembro-me, sim, bem me lembro" de Marcello Mastroiani (1997) 


                            "Memories Of Green" - VANGELIS (1982)

domingo, 1 de novembro de 2020

FLORES DO MAL

Igreja de S. Francisco, Porto, Portugal (2016)

                                                                  CX

UMA MÁRTIR
DESENHO DE UM MESTRE DESCONHECIDO

Pelo meio dos frascos, de estofos brilhantes
E dos móveis voluptuosos,
Entre mármores e quadros, vestidos fragrantes
Rojados plo chão, sumptuosos,

Numa tépida alcova onde, tal como em estufa,
O ar é perigoso e fatal, 
Onde os bouquets, morrendo em seus caixões de vidro,
Exalam o seu sopro final,

Sem cabeça, um cadáver derrama, qual rio,
Sobre a almofada já sem sede
Um sangue bem vermelho, pla tela bebido
Com a avidez de um prado seco.

Semelhante às visões que se criam na sombra
E que nos prendem sempre os olhos,
A cabeça, com o monte de sombrio cabelo
E as suas jóias preciosas,

Na mesa de cabeceira, tal como um ranúnculo,
Repousa; e, sem pensar em nada, 
Um olhar branco e vago, tal como o crepúsculo,
Escapa dos seus olhos em alvo.

Na cama o corpo nu, sem escrúpulos, expõe
No abandono mais completo
A beleza fatal e o secreto esplendor
Que lhe ofereceu a natureza;

Na perna, ornada de oiro, uma rosada meia
Ficou-lhe como uma lembrança;
A liga, como um olho secreto e em chamas,
Dardeja um olhar de diamante.

O aspecto singular daquela solidão
E de um retrato langoroso,
Aos olhos provocantes como a sua pose
Revela um amor tenebroso,

Alegrias culpadas e festas estranhas
Cheias de beijos infernais,
Que enchiam de prazer o enxame dos maus anjos
Entre as pregas dos cortinados;

E no entanto, ao ver a magreza elegante
Daqueles ombros bem recortados,
A cintura fogosa e as salientes ancas, 
Tal como um réptil irritado,

É bem jovem ainda! - A sua alma exasperada
E, gastos plo tédio, os sentidos
Ter-se-iam aberto à matilha açulada
De errantes desejos perdidos?

O homem vingativo que não foste, em vida,
Capaz de saciar com amor,
Satisfez nessa carne inerte e permissiva
A imensidão do seu desejo?

Responde, impuro corpo! e plas rígidas tranças
Como braços febris erguendo-te,
Cabeça assustadora, diz se ele nos teus dentes
Quis colar o supremo adeus?

- Longe dos comentários, tão longe da turba
E dos magistrados curiosos,
Dorme em paz, dorme em paz, estranha criatura,
No teu sepulcro misterioso;

Corre mundo o teu esposo, e a tua forma imortal
Vela junto dele quando dorme;
Tal como tu, decerto ele ser-te-á fiel,
Sempre constante até à morte.

in "As Flores Do Mal" de Charles Baudelaire (Tradução de Fernando Pinto do Amaral) (1857)


                            "Dark Entries" - BAUHAUS (1980)


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

OS MARES ESTÃO DESPOVOADOS

 
Ao largo da Polvoeira, Pataias, Alcobaça, Portugal (2016)

"No passado, os mares pareciam inexauríveis. No entanto, os efectivos de muitas espécies de peixes caíram para 10% ou menos dos seus níveis históricos. Dois terços das unidades populacionais de alto mar, incluindo as de tubarão, atum e espadarte, desceram já abaixo dos mínimos sustentáveis.
A aquicultura cresceu de forma explosiva para satisfazer uma procura em expansão a que a pesca já não consegue dar resposta. Em 1980, apenas 9% do pescado que consumíamos provinha de viveiros, contra 43% actualmente. Mas a aquicultura também tem custos ambientais, incluindo a poluição costeira e a contaminação das espécies selvagens."

in National Geographic - O Estado Do Planeta (Edição Especial - 2008)


                            "Endangered Species" - PAT METHENY / ORNETTE COLEMAN (1986)

domingo, 11 de outubro de 2020

TEMPOS PASSADOS

Salto fantasma, Casa da Guarda do Gaio, Gaio, Alcobaça (2018)

"Em 1974-1975 estávamos na Universidade Nova, ainda unida e instalada na Av. da República, a frequentar um curso sobre o Modernismo dado por um conjunto de grandes eruditos, entre eles, para o caso de Fernando Pessoa, Luciana Stegagno Picchio e Eduardo Lourenço.
   Num dos seminários de Eduardo Lourenço, refletindo sobre a poesia de Álvaro de Campos, exclama o insigne Mestre: "gostava de saber se Pessoa teria mesmo a obra de Walt Whitman".
   Ora eu sabia que a meia irmã, Dona Henriqueta, vivia perto da UNL, do outro lado da Av. da República. Disse a Eduardo Lourenço: é simples, amanhã vou a casa da Dona Henriqueta e pergunto, e procuro na biblioteca dele. Foi o que fiz, e encontrei o volume das Leaves Of Grass profusamente anotado. Encontrei também no pequeno armário de vidros obras que eu conhecia bem, de filosofia hermética.
   Dei a Eduardo Lourenço a informação que o esclareceu e passei a visitar regularmente aquela casa onde uma senhora amável e paciente connosco, "os pessoanos", me deixou microfilmar tudo o que me interessou da arca carregada de papéis ainda desarrumados. Parte da minha investigação desses tempos está publicada em obras dos anos 80. Quanto aos livros, alguns já eu tinha e outros, dos que ele leu, fui comprando ao longo dos anos. Hoje tenho em casa os autores herméticos que foram companheiros da vida do poeta e em grande parte da minha.

                                                                                                  Yvette Celeno
                                                                                                  Escritora e investigadora"

in "Fernando Pessoa - o editor, o escritor e os seus leitores", edição Fundação Calouste Gulbenkian, coordenação editorial de Richard Zenith, com a colaboração de Carlos Filipe Moisés e Maria Helena Melim Borges.


"Na Véspera De Não Partir Nunca" - MARGARIDA PINTO, poema original de Álvaro de Campos (2005)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

DEMON FUZZ

Detalhe captado na capa de um disco em vinil, (2017) 

"Demon Fuzz ajudou a criar a cena afro-rock londrina do final dos anos 60, dando energia ao movimento imortalizado pelos Equals, Cymande e Osibisa. Embora o fundador dos Demon Fuzz, Paddy Corea, não se recordasse do nome do cavalheiro, o modelo na capa era um lutador real, de ascendência guianesa, que residia em Manchester na altura da concepção do álbum.

title          Afreaka!
year         1970
label        Janus "

in "Funk & Soul Covers", Joaquim Paulo - Ed. Julius Wiedemann / Taschen (2010)


                            "Hymn To Mother Earth" - DEMON FUZZ (1970)